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A Balada da Criação do Basquete

«Agora e quando, quase tudo quanto se prende com os valores humanos, éticos e, mesmo os desportivos, se esvaziam cada vez mais e, quando recordar a perspectiva filosófica do inventor do jogo põe em causa o perfil sinuoso do treinador moderno, entendemos estimular as sensibilidades, levando através da nossa revista a mensagem que Alex Omalov pretendeu deixar com A BALADA DA CRIAÇÃO DO BASQUETEBOL, que veio publicada no Boletim da Associação de Treinadores dos Estados Unidos, no seu número de Verão de 1987. (...) Saudações, gente boa! Chamo-me Naismith, de nome próprio James. Sou considerado por muitos o inventor do maior dos jogos. No ano da Graça de 1936 vi o meu jogo disputado nas Olimpíadas de Berlim. Basquetebol nas Olimpíadas - o culminar dos meus sonhos - jogado neste estádio por vinte e três equipas nacionais! O jogo que nos dará a medalha de ouro amanhã será disputado entre o meu país de origem, o Canadá e a minha pátria adoptiva, os Estados Unidos. E, embora me sinta dividido entre os dois, saúdo todos os países onde o Basquetebol ganhou raízes. A pergunta mais frequente que me fazem é como aconteceu ser eu a inventar esto jogo. Bom, fiquem comigo a ouvir a exposição; narrar-vos-ei a criação deste desporto olímpico. Foi há 46 anos. Já ordenado padre, forte de espirito. cheguei à Universidade YMCA em Springfield. O deão da Escola e meu mentor, Dr. Luther Gulick foi quem me haveria de tornar famoso. No seu seminário, lançou-nos um desafio: a necessidade de criar um jogo de Inverno, jogado em Pavilhão com luz artificial. Disse o nosso líder: «Não há nada de novo sob o sol: Todas as coisas novas são recombinações do que já existe.» Respondi-lhe: «Doutor, conseguimos decerto criar um jogo novo, se recriarmos elementos dos jogos existentes.» «Experimenta», disse ele. «Traz-me um projecto de um jogo novo no nosso pr6ximo encontro.» Só Deus sabia o quanto a minha vida ia ser mudada por aquele oferecimento voluntário. Saímos convencidos de que íamos oferecer um jogo novo ao Mundo. (...) De repente senti-me aliviado - acabara-se o problema. Com estes factos na mente endireitei-me e gritei: «Se ele não puder correr com a bola, não tem que ser placado: e se não for placado acaba-se a violência.» Ainda me lembro me lembro de como dei um estalido com os dedos e gritei: «Achei! Ultrapassei finalmente o grande obstáculo!» Agora não vejo que houvesse razão para tanta alegria, muitos mais princípios requeriam ainda a minha atenção. Já que um jogador não podia correr com bola tinha que definir o que ele podia fazer com ela. Visualizando mentalmente os movimentos dos jogadores, ia tentar passar ao ponto seguinte. Tinha então um jogo com uma bola grande e leve, que se tinha de bater ou passar para a movimentar. Para não haver ferimentos como no pugilismo, era ilegal bater a bola com o punho. O jogo agora progredia no tipo «mantém-te afastado.»: e eu temia que os jogadores se desinteressassem. Era essencial divisar um objectivo para o jogo. Em todos os jogos existentes se procurava o golo. Comparei o futebol americano, o futebol, o hóquei e o lacrosse, procurando encontrar o objectivo ideal para o nosso jogo. Não sei como é que me fui lembrar de, em pequeno, jogar ao «pato na rocha» em Ontário. A ideia era derrubar um «pato», na realidade uma pedra, atirando de longe um outro «pato» nosso. Quando se conseguia derrubar o pato da rocha tinha-se que o colocar de novo, antes de iniciar a perseguição. Um pato lançado com força levava mais tempo a recolocar e os que iam apanhá-lo tinham que correr mais fugindo à perseguição. Mas se o lançamento fosse levemente arqueado, atingia-se melhor o objectivo do lançador. Uma baliza que forçasse os jogadores a lançar em arco eliminaria a força no lançamento. A minha ideia era uma baliza horizontal, cujo tamanho e feitio tinha ainda que definir. Supondo que eu colocava uma caixa nos dois extremos do ginásio? Cada vez que a bola entrasse marcava ponto Mas então como se poderiam marcar pontos, numa baliza guardada por nove homens? A solução? Uma baliza suspensa acima das cabeças que tornasse possível a marcação - objectivo do jogo. Agora, como começar este jogo de balizas suspensas? Lembrem-se que eu tinha em vista abolir a violência. O começo do polo aquático poderia ser uma hipótese, mas a confusão no meio da piscina fazia-me pensar. Dezoito homens a disputar a bola no meio-campo... Eu temia os resultados de tal colisão. E, no entanto, eu sentia que, para evitar a brutalidade, se devia dar início ao jogo com bola ao ar. Designar dois jogadores, e só esses disputarem a bola, diminuiria certamente as hipóteses de confusão. Embora tivesse definido os princípios básicos do meu jogo, sabia que tinha que encontrar respostas para mais problemas. Nessa noite tive de novo oportunidade de pensar nos meus esquemas repensando aspectos do jogo enquanto sonhava. Tornei-me na primeira pessoa que alguma vez praticou este desporto saltando e pulando na cama como num campo. Na manhã seguinte, entrei no meu escritório, indeciso quanto ao tipo de bola a escolher. Havia duas no chão, perto do meu cacifo, uma de futebol americano e outra de futebol. Como não ia haver corrida com a bola, escolhi a de futebol e desci para o hall. Aí encontrei o Sr. Stebbins, o contínuo, perto da escada e perguntei-lhe se tinha duas caixas de 45cm2. «Não, não tenho caixas», retorquiu ele, pensativo, «mas tenho dois cestos de pêssegos se os quiser». Voltou com os dois cestos, martelo e pregos. E eu fixei os dois cestos aos varões mais baixos da galeria do balcão Para dar bastante espaço à trajectória da bola, os cestos foram colocados a três metros e cinco. Estava pronto a deixar os homens experimentar o novo jogo, mas precisava de um conjunto de regras a seguir. Como na minha mente elas já estavam escritas rapidamente fiz uma cópia para Miss Lyons, a nossa estenógrafa.»

Artigo publicado na revista da A.N.T.B. "O TREINADOR" Nº19 de Dezembro de 1987